Depois de lhe ter arranjado alguns mp3 dos álbuns dos Pink Floyd, começámos a trocar ficheiros de música para trás e para a frente, numa flash disk.
[Ak.] Isto até é prático - é uma troca.
Entreguei-lhe música tão variada quanto Mariza, GoTan Project e Asian Dub Foundation. Recebi Matoub Lounès, Gnawa e uma pasta chamada El-Dine, que estava na flash.
- É uma espécie de missa? perguntei-lhe
- Sim, é um imam a ler o Corão. "El-Dine" significa "A Religião".
- Incrível, disse-lhe, como sem perceber uma palavra é tão agradável ouvir a forma como ele canta tão bem [o Abdel acrescentou que foi este senhor de nome difícil de pronunciar que fez a leitura do Corão em Meca, durante o Ramadão] e que é de certa forma calmante ouvi-lo.
- É curioso que houve uma chinesa que me disse isso mesmo há uns tempos.
E de repente ficou pensativo, até ao momento de eu sair do táxi, quando finalmente desembuchou:
- Olha, se ouvires a leitura do Corão...
- ...sim???...
- ...não o faças num local impuro, ok?
E voltei aos meus silêncios encavacados - já tinha saudades.
Tuesday, 22 May 2007
Monday, 21 May 2007
Saturday, 19 May 2007
Eleições legislativas 17 de Maio
Thursday, 10 May 2007
Vocabulário Francês
Desde que cheguei, já aprendi muitas palavras novas em francês.
Dá muito jeito saber que A perú, A tomate e A puré se serve numA prato para ir comer nA terraço, o que só demora umAs minutos. Como diz o outro ;-) ainda bem que pão é "pain" e que vinho é "vin" - assim os básicos ficam assegurados.
Também parece muito mais "chiqué" devolver um "je vous en prie" quando alguém nos agradece - muito mais chic do que um simples "de rien".
Mas as mais recentes e infelizes adições ao meu vocabulário foram na segunda-feira passada, quando estava a subir para o último autocarro para casa, às sete da tarde.
Um "sans-abri", que cheirava a "saleté" e a "misère", e de olhos vazios como os de um cão vadio, chegou-se a mim e "s'est cramponné" à minha mochila para me "éturdir" e depois me roubar.
Neste momento da história, é preciso pensar três vezes o "roubar", porque a primeira vez que a contei, usei o verbo "voler" e o meu interlocutor francófono entendeu que o indigente se tinha tentado pôr em fuga, de imediato. Da segunda vez que contei a história, optei pelo "ravir" e passei a mensagem de que tinha sido uma tentativa de assalto verdadeiramente notável. [Isto de aprender a falar francês com dicionários tem muito que se lhe diga, mas pouco que se aproveite.] A terceira vez que contei a história fiz aquele silêncio de suspense, com um gesto largo, que finalmente o interlocutor completou com o sentido correcto.
Chego à conclusão que são bastante frequentes as vezes que faço esse gesto largo acompanhado de um "hhh" ou que uso as palavras erradas. Por isso é que me sabe tão bem responder ao "merci" com um "je vous en prie" - sinto-me tão............... [gesto largo].
Felizmente, o assunto da tentativa de "vol au bonjour" (em plena luz do dia) ficou por ali, e entrei para o autocarro depois de ter ameaçado o escroque agressivamente e em bom português (devem ser os efeitos masculinizantes da Harissa... Tant mieux). A minhA "attaque de nerfs" só veio depois.
Dá muito jeito saber que A perú, A tomate e A puré se serve numA prato para ir comer nA terraço, o que só demora umAs minutos. Como diz o outro ;-) ainda bem que pão é "pain" e que vinho é "vin" - assim os básicos ficam assegurados.
Também parece muito mais "chiqué" devolver um "je vous en prie" quando alguém nos agradece - muito mais chic do que um simples "de rien".
Mas as mais recentes e infelizes adições ao meu vocabulário foram na segunda-feira passada, quando estava a subir para o último autocarro para casa, às sete da tarde.
Um "sans-abri", que cheirava a "saleté" e a "misère", e de olhos vazios como os de um cão vadio, chegou-se a mim e "s'est cramponné" à minha mochila para me "éturdir" e depois me roubar.
Neste momento da história, é preciso pensar três vezes o "roubar", porque a primeira vez que a contei, usei o verbo "voler" e o meu interlocutor francófono entendeu que o indigente se tinha tentado pôr em fuga, de imediato. Da segunda vez que contei a história, optei pelo "ravir" e passei a mensagem de que tinha sido uma tentativa de assalto verdadeiramente notável. [Isto de aprender a falar francês com dicionários tem muito que se lhe diga, mas pouco que se aproveite.] A terceira vez que contei a história fiz aquele silêncio de suspense, com um gesto largo, que finalmente o interlocutor completou com o sentido correcto.
Chego à conclusão que são bastante frequentes as vezes que faço esse gesto largo acompanhado de um "hhh" ou que uso as palavras erradas. Por isso é que me sabe tão bem responder ao "merci" com um "je vous en prie" - sinto-me tão............... [gesto largo].
Felizmente, o assunto da tentativa de "vol au bonjour" (em plena luz do dia) ficou por ali, e entrei para o autocarro depois de ter ameaçado o escroque agressivamente e em bom português (devem ser os efeitos masculinizantes da Harissa... Tant mieux). A minhA "attaque de nerfs" só veio depois.
As coisas que eu não sabia...
O Fawzi está sempre a ensinar-me coisas novas. Gosto muito de conversar com o Fawzi sobre o Corão, sobre a Sunnah e os Hadiths e de aprender com eles.
{Catarina} O porco é só proibido de se comer ou também é visto como um animal mau, de alguma forma?
{Fawzi} É só completamente proibido comer o porco ou quaisquer derivados.
{Catarina} Por mim até é igual, porque há mais de doze anos que não como...
{Fawzi} Mas fazes bem - as escrituras proibem o seu consumo porque ele é terrível para a saúde.
{Catarina} ????
{Fawzi} Sim, aliás prova disso é o povo da Suécia, que come muita carne de porco.
{Catarina} ???? [em silêncio, claro, porque para aprender é necessário estar com os ouvidos bem disponíveis, assim como o espírito...]
{Fawzi} [com um ar encavacado, à procura das melhores palavras] Por causa de comerem muita carne de porco é que as mulheres suecas têm problemas...
{Catarina} ?Problemas? Que problemas?
{Fawzi} Bom... elas... elas comem muita carne de porco, e depois não procuram os maridos... percebes? Por isso é que os suecos têm tão poucos filhos.
E pronto - eu a pensar que a Europa estava a envelhecer por causa do custo de Vida, e por causa da emancipação da Mulher, e por causa da utilização racional de métodos contraceptivos... afinal a nossa desgraça são as febras e o chouriço. Será que uma boa sande de coiratos antes de sair à noite pode prevenir algumas relações extra-conjugais? E um bocadinho de toucinho barrado numa fatia de pão alentejano, coberta com açúcar, poderá fazer os nossos jovens adolescentes prestarem mais atenção nas aulas? E quem diz isto, diz uns bolinhos fritos em banha, durante todo o Verão no Algarve, que como se sabe é pólo de DST's e de gravidezes indesejadas...
{Catarina} O porco é só proibido de se comer ou também é visto como um animal mau, de alguma forma?
{Fawzi} É só completamente proibido comer o porco ou quaisquer derivados.
{Catarina} Por mim até é igual, porque há mais de doze anos que não como...
{Fawzi} Mas fazes bem - as escrituras proibem o seu consumo porque ele é terrível para a saúde.
{Catarina} ????
{Fawzi} Sim, aliás prova disso é o povo da Suécia, que come muita carne de porco.
{Catarina} ???? [em silêncio, claro, porque para aprender é necessário estar com os ouvidos bem disponíveis, assim como o espírito...]
{Fawzi} [com um ar encavacado, à procura das melhores palavras] Por causa de comerem muita carne de porco é que as mulheres suecas têm problemas...
{Catarina} ?Problemas? Que problemas?
{Fawzi} Bom... elas... elas comem muita carne de porco, e depois não procuram os maridos... percebes? Por isso é que os suecos têm tão poucos filhos.
E pronto - eu a pensar que a Europa estava a envelhecer por causa do custo de Vida, e por causa da emancipação da Mulher, e por causa da utilização racional de métodos contraceptivos... afinal a nossa desgraça são as febras e o chouriço. Será que uma boa sande de coiratos antes de sair à noite pode prevenir algumas relações extra-conjugais? E um bocadinho de toucinho barrado numa fatia de pão alentejano, coberta com açúcar, poderá fazer os nossos jovens adolescentes prestarem mais atenção nas aulas? E quem diz isto, diz uns bolinhos fritos em banha, durante todo o Verão no Algarve, que como se sabe é pólo de DST's e de gravidezes indesejadas...
Monday, 7 May 2007
Porque é que pensam que eu sou argelina
- Bonjour Monsieur, où est-ce qu'on peut trouver la boulangerie la plus proche?
- (em árabe) ralralralralralralralralralralralralralralral
- Escusez-moi, Monsieur, en français, s.v.p....
- (e continuam) ralralralralralralralralralralralralralralral (com aquele ar de "olha mais uma armada em fina a renunciar às suas raízes árabes...")
- Écoutez, Monsieur - c'est le français ou rien - je suis portugaise...
- AAAAAHHHHHHHHHHHH PORTUGAISE!!! PORTUGAL!!!
E aqui, ao contrário de Moçambique, onde topavam os Tugas a 3km, e de Cabo Verde, onde evocavam o Cristiano Ronaldo, aqui uns falam no gás (nada mal - perspectivas económicas na boca do povo é coisa rara...) outros falam em Lisboa - e outros ainda, que viveram em França, dizem que tinham lá amigos portugueses (Cárválu, Êsstêvésse, Côsstá e outros que tais).
"Pensava que era argelina, desculpe."
E findos quase três meses, tentada a dizer que tenho antepassados da Kabylie (o que iria projectar-me para uma nova e mais elevada esfera de status) eis a receita para ser mais do que a a.k.a. Argelina Jolie - eis uma argelina de gema:
O meu sobretudo preto até aos pés - ingrediente indispensável, comprado na Praça da Figueira, com uma etiqueta a dizer "100% Cashmere Feeling". Tem que se andar muito "tapadinha", como as Barbies locais...
Para mim, carne de porco = haram ("proibido", segundo O Livro). Ganho logo ali mais cinquenta pontos. Ficam muito tristes quando logo a seguir digo que bebo álcool e que não estou em vias de desistir. Fazem-me um olhar tipo "que pena, tinhas tudo para não seres mais uma nesta tropa de Infiéis..."

- (em árabe) ralralralralralralralralralralralralralralral
- Escusez-moi, Monsieur, en français, s.v.p....
- (e continuam) ralralralralralralralralralralralralralralral (com aquele ar de "olha mais uma armada em fina a renunciar às suas raízes árabes...")
- Écoutez, Monsieur - c'est le français ou rien - je suis portugaise...
- AAAAAHHHHHHHHHHHH PORTUGAISE!!! PORTUGAL!!!
E aqui, ao contrário de Moçambique, onde topavam os Tugas a 3km, e de Cabo Verde, onde evocavam o Cristiano Ronaldo, aqui uns falam no gás (nada mal - perspectivas económicas na boca do povo é coisa rara...) outros falam em Lisboa - e outros ainda, que viveram em França, dizem que tinham lá amigos portugueses (Cárválu, Êsstêvésse, Côsstá e outros que tais).
"Pensava que era argelina, desculpe."
E findos quase três meses, tentada a dizer que tenho antepassados da Kabylie (o que iria projectar-me para uma nova e mais elevada esfera de status) eis a receita para ser mais do que a a.k.a. Argelina Jolie - eis uma argelina de gema:
O meu sobretudo preto até aos pés - ingrediente indispensável, comprado na Praça da Figueira, com uma etiqueta a dizer "100% Cashmere Feeling". Tem que se andar muito "tapadinha", como as Barbies locais...

Para mim, carne de porco = haram ("proibido", segundo O Livro). Ganho logo ali mais cinquenta pontos. Ficam muito tristes quando logo a seguir digo que bebo álcool e que não estou em vias de desistir. Fazem-me um olhar tipo "que pena, tinhas tudo para não seres mais uma nesta tropa de Infiéis..."
Molho Harissa - uma pasta bastante picante, divinal, que até em iogurtes fica bom. É feita a partir de malaguetas, alho, azeite, e 14 ou 15 E's cancerígenos. É, literalmente, de chorar. (Espero que não me cresçam pêlos no peito à custa das doses que ingiro...)

O lenço na cabeça - não necessariamente a cobrir tudo - basta tapar o cabelo e só me falta pintar os olhos à la mode locale (com um risco grosso preto, a toda a volta, e umas grandes pestanas) para começarem a pedir-me o número de telemóvel... ou a receber propostas de "relations" [Ver «Cromos do meu Álbum: Mohammed, o Polícia»]


Por último, e não menos importante: Le Véritable Selecto, refrigerante-bebida-nacional. Sabe, segundo uns, a Betadine, e segundo outros, a óleo do motor. A mim sabe-me a "picos", maçã, caramelo, e perfumes tuaregues. Quem não bebe, está fora!!
Monday, 30 April 2007
Cromos do meu Álbum: Mohammed, o polícia
"- Est-ce que nous pouvons avoir une relation?" disse ele por detrás do seu bigode.
relation s.f.
1. relação, ligação, conexão;
2. convivência, trato;
3. comunicação;
4. relação sexual;
5. narração, narrativa, relato;
Num ápice, passei em revista as possíveis definições deste conceito, e excluí logo as últimas.
"Pardon???"
e ele insistiu "Est-ce que nous pouvons avoir une relation?"
"Alors - disse eu com a minha cara n.º17, ça dépend du type de relation..."
e digamos que não fiquei muito contente com a minha própria resposta.
Por causa disto, passei a fazer a minha cara mais não-tribal-mas-não-se-metam-comigo que me é possível. Deixei de cumprimentar de forma minimamente afável, as pessoas nas lojas, recentemente. Leia-se, neste caso, os homens. [As mulheres deverão estar todas em casa, ou nalgum clube secreto subterrâneo, porque as (raras) que andam na rua vê-se que vão apressadamente a caminho de qualquer coisa - esplanadas, jardins, e espaços de descanso não contam com o sexo feminino.]
E ainda não contei a história do outro Cromo: o Médico...
relation s.f.
1. relação, ligação, conexão;
2. convivência, trato;
3. comunicação;
4. relação sexual;
5. narração, narrativa, relato;
Num ápice, passei em revista as possíveis definições deste conceito, e excluí logo as últimas.
"Pardon???"
e ele insistiu "Est-ce que nous pouvons avoir une relation?"
"Alors - disse eu com a minha cara n.º17, ça dépend du type de relation..."
e digamos que não fiquei muito contente com a minha própria resposta.
Por causa disto, passei a fazer a minha cara mais não-tribal-mas-não-se-metam-comigo que me é possível. Deixei de cumprimentar de forma minimamente afável, as pessoas nas lojas, recentemente. Leia-se, neste caso, os homens. [As mulheres deverão estar todas em casa, ou nalgum clube secreto subterrâneo, porque as (raras) que andam na rua vê-se que vão apressadamente a caminho de qualquer coisa - esplanadas, jardins, e espaços de descanso não contam com o sexo feminino.]
E ainda não contei a história do outro Cromo: o Médico...
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